"Mentes são como paraquedas, só funcionam quando abertas". Nada melhor para abrir a mente do que experenciar o mundo. Morar fora é, sem dúvidas, uma das experiências mais transformadoras na vida de qualquer um. Pelo menos foi assim comigo. Quando se é jovem isso se intensifica ainda mais, acredito eu. É uma época esquisita em que você se sente velho o suficiente pra começar a pensar nas questões sérias da vida, mas jovem demais, pra pensar nas coisas sérias da vida (:P). É um momento de transição em que você sai do casulo e começa as voar com as próprias asas. É um momento de inseguranças, incertezas a respeito do quem você realmente é, o que você pensa, sua visão de mundo, e que lugar no mundo você quer ocupar. Nada melhor do que uma experiência fora pra dar um empurrãozinho. Não que você vá voltar com todas essas questões respondidas, mas sem dúvidas você vai voltar diferente. Na minha opinião, pra melhor.
A minha experiência foi de um ano de intercâmbio em Oslo, Noruega. É. Terceiro lugar muito bem merecido no ranking das cidades mais caras do mundo em 2014. E não, eu não sou filha do Eike Batista (obs: isso fazia sentido há alguns meses atrás). Eu cheguei até lá através do programa Ciência sem Fronteiras (#BeijoDilma).
Pagando uma conta na Noruega
Foi inclusive pela Universidade de Oslo que o autor da frase acima, James Dewar, físico e químico, recebeu seu título de Doutor, em 1911. História a parte, passar 1 ano na Noruega estava anos luz da minha capacidade monetária e fazer um intercâmbio sempre foi um sonho distante pra mim, por isso eu não pensei duas vezes assim a oportunidade surgiu. Um ano longe da sua família e amigos? sim. Um ano de atraso da sua graduação que você sonha desesperadamente com o dia que vai acabar? sim. Mas nada disso chega perto do retorno de uma experiência como essa.
Festival Medieval
A experiência de morar fora faz você se chocar com diferentes culturas. Não exatamente um choque, no meu caso, afinal de contas eu não me mudei pro Zimbábue ou pro Paquistão, mas ainda assim você consegue observar particularidades de cada cultura e passa a respeitá-las, o que torna você, sem dúvidas, uma pessoa mais tolerante.
No começo é um pouco difícil porque você ainda interpreta as atitudes dos outros de acordo com a sua própria cultura, como se essa fosse a lei universal de comportamento e bom senso. Logo que eu pisei em Oslo, com 2 malas grandes, uma mochila pesando 10 quilos e mais uma sacola de mão (sim, porque pesquisando um pouco sobre a Noruega, é claro que eu pensava que ia viver a base de pão e água e não ia ter dinheiro pra comprar nada, logo eu teria que levar tudo do Brasil), tendo que subir pra cima e pra baixo com tudo isso, tendo que parar de tempos em tempos pra descansar, ninguém, nem uma alma sequer, se ofereceu pra me ajudar.
É claro que a minha primeira impressão não foi das melhores. De fato, as pessoas tendem a ser muito mais atenciosas no Brasil, às vezes tão atenciosas que alguém pode aparecer pra carregar suas malas e nunca mais voltar, só pra você nunca mais precisar carregar aquele peso. Adoro a hospitalidade brasileira. Enfim, com o tempo fui percebendo que o fato de os noruegueses não estarem prontamente dispostos a ajudar estranhos na rua (eles são muito atenciosos quando você pede uma ajuda, só não espere uma iniciativa deles) não significa uma deficiência no caráter, ou algo do tipo. É apenas um tipo de postura que, dentro da cultura deles não se costuma tomar. A Noruega tem um senso de igualdade que é levado ao extremo. Ninguém tem o direito de se sentir mais capaz, mais inteligente do que outros. Então um ato como o de se oferecer pra carregar as sacolas pesadas de uma velhinha na rua pode ser encarado por ela como se você a enxergasse como não capaz. Não importa como a cultura dos outros possa parecer estranha de início, como o tempo você começa a compreendê-la e enxergar o quanto a sua própria cultura pode parecer 'no sense' pros outros também.
Outro aspecto de morar fora são os amigos que você ganha. Amigos não, família. Sim, porque o fato de estar longe da sua família e amigos faz com que você esteja muito mais aberta a novas amizades. Quando você encontra outras pessoas na mesma situação que você, é inevitável que esses laços se criem. É engraçado como em um dia aquelas pessoas são completos desconhecidos e em pouco tempo parece que vocês se conhecem a anos. Você cria amigos pra vida toda. Pessoas tão diferentes de você que em outras circunstâncias nunca se tornariam suas amigas, o que seria uma pena, porque você percebe o quanto você aprendeu com elas. Mas ai os meses passam e chega aquela mesma fase dolorosa do início, onde você teve que deixar sua família e amigos, e que agora você tem que se despedir dessa nova família que você ganhou. Pessoas que estavam com você na luta fracassada de ir para a academia, que estavam com você no metrô enquanto vocês falavam mal da pessoa ao lado, só porque ela não pode entender uma palavra (as vezes eles podem), que te ajudavam quando você ficava doente e sua mãe não estava ali pra cuidar de você, que estavam com você nos momentos mais incríveis da sua vida. Essas pessoas vão agora seguir seus próprios rumos, de volta às suas vidas. Mas uma coisa é certa, nada mais será como antes...



